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A Filosofia e o Conhecimento

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando tentamos definir a filosofia é a de buscar uma razão para sua existência. E como não queremos defini-la e nem de localizar precisamente a sua origem, preferimos dizer que a filosofia nada mais é que o “ato de filosofar” e, com base nisso, compreender o homem como um ser situado numa época que se sente perplexo com a realidade vivida e começa a se perguntar sobre tal realidade, buscando uma razão fundamental para tudo o que existe.

O melhor meio de se aproximar da filosofia é perguntar. Só que não são perguntas/questões. São perguntas/problemas. Como se formou o mundo? Haverá uma vontade ou um sentido por detrás daquilo que acontece? Haverá vida depois da morte? Como podemos encontrar resposta para estas perguntas? E, acima de tudo, como deveríamos viver? São perguntas de para reflexão, ou seja, o pensamento dentro de uma ação humana que permite uma tomada de atitude dos homens diante dos acontecimentos da vida.

Reflexão vem da expressão latina reflectere, que significa “voltar atrás”. Ou seja, um repensar detidamente, prestar atenção, analisar com cuidado e interrogar-se sempre sobre as opiniões, as impressões, os conhecimentos técnico-científicos e o próprio sentido da filosofia.

É difícil saber o instante exato em que se inicia a atividade filosófica na história, ou quando as perguntas/problemas começam a ser feitas pelas pessoas em suas épocas. Para isso, precisaríamos saber em que momento o homem começou a questionar-se sobre si mesmo, sobre os outros homens, sobre o mundo em que vive. Teríamos de determinar quando e por que o homem começou a pensar mais seriamente, mais profundamente sobre determinados fenômenos que perturbavam sua existência. É claro que muitas explicações foram criadas para os fenômenos naturais que incomodavam os seres humanos; mas, em certo momento, alguns começam a duvidar dessas explicações.

A partir da dúvida, o ato de filosofar ganha proporções importantes, pois, percebendo as contradições existentes nas diversas explicações dos acontecimentos do mundo, o homem passou a questioná-las, a pô-las em xeque, e a buscar respostar mais coerentes, mais concretas para suas interrogações.

A primeira experiência com o “ato de filosofar” de que temos conhecimento deu-se na Grécia Antiga. Com o nascimento da polis, as cidades-Estado gregas passam a expandir poder político, econômico e cultural para outras civilizações, o que permitiu o desenvolvimento de aspectos importantes da cultura, das formas de governo, da participação popular, influenciando o desenvolvimento intelectual e permitindo que surgissem os problemas reais sobre a existência do universo. É aí que aparece a figura do filósofo, ou seja, um “amante da sabedoria”, alguém cujo objetivo é chegar à sabedoria. É por isso que o pesquisador Jean-Pierre Vernant afirmou que “a filosofia é filha da cidade”.

O filósofo procura desvendar o saber. Não um saber pronto e acabado, mas um saber que experiencía o não saber, que faz o movimento da ignorância ao saber. Aquele que busca conhecer alguma coisa, que está sempre à procura de respostas e da constante superação dessas respostas, pois, sempre que chegamos a uma resposta, ela nos desperta para inúmeras outras perguntas. Por isso, definimos anteriormente a pergunta filosófica como uma pergunta/problema.

O ato de filosofar começou a surtir efeito naquelas comunidades primitivas que freqüentemente recorria a mitos para explicar os fenômenos não compreendidos. O mito, em geral, era – e é até hoje – uma explicação que utiliza elementos simbólicos e sobrenaturais para entender o mundo e dar sentido à vida humana, respondendo satisfatoriamente à curiosidade das pessoas. Muitos acreditavam e acreditam em certas explicações mitológicas sem fundamentação lógica de um saber racional e sem colocar em dúvida aspectos dessa crença. O mito não coloca em dúvida suas explicações: são verdades absolutas e ninguém pode negar; já a filosofia caracteriza-se por sempre buscar algo mais, por não se contentar com a primeira explicação disponível.

A filosofia nasceu e nasce da aspiração de estar em toda parte e em qualquer circunstância. É como o ar que respiramos e que nos coloca diante de questões que exigem “atitudes” para tomar certas decisões que preencham nossas aspirações. É por isso que a filosofia ainda não teve fim, e provavelmente jamais terá, embora, em muitos momentos da história, filósofos tenham tido a pretensão de ter alcançado a sabedoria, isto é, o fim da própria atividade filosófica. Mas suas idéias foram logo questionadas, e sua pretensão ruiu, seguindo a filosofia à procura de um saber cada vez mais aprimorado.

Você está percebendo que a filosofia é uma atividade em constante transformação: depende da cenografia de cada época e dos atores que sobem ao palco – os filósofos que tentam compreender essa cena em que vivem. Desse modo, é muito difícil definir o que seja filosofia, pois ela assume diferentes feições. Para facilitar sua compreensão, falaremos um pouco de três grandes figuras do período clássico grego, que viveram entre os séculos V e III a.C. e de como viveram a atividade filosófica.